Ontem, quando percebi o que faz falta para a nova casa, arrependi-me imenso do plano que já tinha prometido para hoje. A promessa estava feita desde o inicio do semana, eles todos os dias falavam nisso e já não consegui dizer que não. Mesmo que lhes explicasse que o dinheiro seria para a casa nova, era uma desilusão que lhes dava. Ainda bem que não o fiz, os miúdos fizeram-me ver que foi dinheiro mais que bem investido.
Hoje fomos todos ao restaurante. Os meus pequenos grandes benfiquistas, que comem arroz ao pequeno-almoço, almoço e jantar, hoje tiveram direito a restaurante!
Depois da aula da tarde, fiquei pela Kilt com o mais velho à espera deles para tal programa. Fomos beber um sumo de laranja. Apesar do calor enorme e dos seus 19 anos, achei que a mais que apetecível cerveja podia não ser a melhor das ideias. As raparigas saíram para ir às compras. O sucesso do mercado está a fazer-se sentir, pelo menos já lhes chega algum dinheiro. Tinham 1$ (menos de um euro) mas conseguiram comprar 1 vestido e um equipamento de futebol para as 2 mais pequenas, que bem precisam de roupa. Se a escolha do vestido é fácil de perceber, a escolha do equipamento têm uma justificação, no mínimo, curiosa. Equipamento cor-de-rosa, do Manchester City. Como podem ver na imagem, o símbolo tem 3 estrelas e uma águia, pelo que para a Soklay trata-se de equipamento do Benfica versão cor-de-rosa. Posto isto, foi o que ela escolheu comprar para ela e foi mostrar-me com o maior dos orgulhos.
Mais perplexo fiquei com o gesto seguinte dela. Sobraram 100 reais, uma nota equivalente a 2,5 cêntimos, das compras. Ela não faz mais nada, veio oferecer-me alegando que ela não precisava e eu ia pagar o jantar. Como é obvio, apesar dela insistir, recusei e mandei-a comprar um gelado mas ficou o gesto. Além duma pequena grande benfiquista, estamos perante uma grande pessoa. Assim é ela, assim são todos.
De regresso à Kilt, as raparigas foram todas tomar banho, arranjar-se e vestir as suas melhores roupas. Pediam-me ajuda para escolher. Às 5, depois da escola, chegaram os rapazes. Fizeram fila para a casa de banho. 3 de cada vez naquele cubículo minúsculo, todos a cantar, lá foram despejando os baldes de água para cima deles (é assim que se toma banho por cá). Desta vez, além dos cabelos, também eles escolheram a melhor roupa para ir jantar fora (camisolas do benfica para os 3 mais novos).
Tudo pronto para ir, convidei também o Bel que aceitou de coração e os outros três portugueses que foram ter ao restaurante. Perderam boa parte do espectáculo. O Bel foi de mota e levou 3 dos pequenos grandes benfiquitas com ele. Eu e os outros 10, distribui-mo-nos por 7 bicicletas e pedalámos. Miúdos sentados na parte da frente da bicicleta, no ferro onde se conduz e onde, numa bicicleta europeia, estão as mudanças. Para lá iam todos atrás de mim, foi tranquilo. No regresso a casa, a ideia foi fazer corridas. Completamente loucos mas... a ideia partiu do teacher. Capaz de matar algum mas chegámos todos vivos e... com uma aquisição. No restaurante havia por lá um gato pequeno que, já depois de comermos foi a atracção, com todos a pegar no animal e o teacher Zé a jogá-lo ao ar.. Eis o meu espanto quando chego à Kilt, depois de perder a corrida, e ver o gato ainda na mão dos pequenos. O Bel achou um piadão, eu também. Mais um para assistir às minhas aulas..
Quanto à refeição propriamente dita, foi boa demais. Uma mesa para todos com 4 grelhadores para a carne. Era buffet, all you can eat, e havia de tudo (o crococilo é mesmo bom, os miúdos também adoraram) . Muitas das coisas, os pequenos grandes benfiquistas nunca tinham sequer provado. Comeram até não dar mais. Diziam estar cheios mas iam buscar pratos e mais pratos. Os mais velhos, e a maior parte das vezes eu, íamos buscar a comida para os mais pequenos. Beberam coca-colas e sumos. O programa durou 3 horas. 3 horas a comer e a aproveitarem o momento. Nucha, Zé Grazina e Luís Rodrigues, vocês ao pé deles são uns meninos a comer. No fim, já todos tortos nas cadeiras de tão cheios que estavam, continuavam de sorriso na cara e fascinados. Estavam radiantes com tanta coisa, chamavam-se a meio da refeição para ver as suas bocas cheias de comida. Todos comiam de boca aberta, todos comiam de cotovelos em cima da mesa, todos cantaram, todos gritaram Benfica quando o outro português falou num tal sporting. Eu fiz igual e digo-vos, que bem que sabe parvejar à mesa e esquecer as regras parvas que só nos tiram alegria de viver. Também ouvi alguns arrotos, foi lindo...
De regresso à Kilt, todos de mão nas barriga a mostrarem o quão gordos estavam após o jantar. Além disso, fizeram uma roda à minha volta e os mais pequenos só me davam abraços e queriam vir para o meu colo. Todos, sem excepção, agradeceram. Agradeceram em Khmer, em inglês e até em português. Eu, mais que a barriga, voltei de "coração cheio".
Sem comentários:
Enviar um comentário