domingo, 6 de setembro de 2015

A despedida!

Kilt, pela ultima vez. Pelo menos naquela casa maravilhosa será. Fui de manhã ter com os meus pequenos grandes benfiquistas, aos quais faltavam 2 – o La e o Lay. Fomos então visitá-los, eu, o Sarath - irmão deles e mais 4. Os 6 fomos em 5 bicicletas, o Sopan de 10 anos foi comigo na minha. É difícil pedalar na areia naquela bicicleta com 2 pessoas mas um cesto cheio de presentes. Mais dificil deve ter sido para outros 2 que viram os pneus das suas bicicletas furados.
Levei mais latas de atum e muitos kgs de arroz. Ficaram com um boião que leva uns 7 litros de água cheio de arroz, mais um saco de 10kgs. Levei também pastas e escovas de dentes para os dois miúdos que rejeitam lavá-los. Como qualquer criança merece um brinquedo para brincar, levei também 2 presentes para eles. Um robot que o Lay tanto gosta, e duas pistolas de brincar com um alvo para o La. Eles adoraram mas, ainda assim, as prendas que mais gostaram foram as 8 fotos que lhes dei. Fotos nossas, eu eles e a mãe. Voltei para a Kilt, deixei-os contentes e com comida. Que tudo lhes corra bem e que sejam um sucesso na escola.


















Para a Kilt, também fui de mochila cheia. Perguntei aos pequenos grandes benfiquistas o que queriam para os seus quartos novos na casa nova, mandei-os escolher o que quisessem que eu comprava. Enquanto a resposta europeia seria uma televisão, playstation ou algo do género, eles pediram-me apenas um espelho que não têm e uns cabides para a pouca roupa. Assim foi, um espelho e um cabide para cada quarto. Além disso, deixei-lhes também umas porcariazinhas que fui acumulando por cá, mais as réguas que tinha comprado quando virei arquitecto. Deixei-lhes 7 ou 8 t-shirts minhas que tinha trazido. Desculpa mãe mas a minha gaveta vai continuar cheia e eles precisam bem mais que eu. Adoraram a roupa do teacher Zé, dividiram entre os mais velhos. Algumas estavam lavadas, outras não. Preferiram as mais porcas, todas suadas da obra porque cheiravam a Zé. Depois dos ténis de futsal, deixei também os meus ténis com que andei todos os dias por cá. Ficaram para o mais velho que hoje no mercado já andava com um t-shirt minha, das que supostamente estava por lavar. A bicicleta deixei ao Soman que não tinha, sei que ele precisa e também sei que ele a empresta sempre que algum precisar. De tudo, o mais visto e apreciado foram as fotos. 110 fotos nossas que resumem estes 2 meses. Fotos de todos, fotos minhas com todos. Rimos imenso aos -las, afinal foram muitos momentos, muitos programas, muitas brincadeiras, muita alegria. Sei que aquelas ficarão bem guardadas e vão acabar nas paredes da casa nova.
Eles a mim deram-me mais desenhos, levo mais de 50, para a parede do meu quarto. Deram-me também 3 anéis, disseram que estou casado com eles. Comprometido estou e perto ou longe, ser-lhes-ei fiel naquilo que prometi – comida e matérias para a escola não voltarão a faltar. Prometi também voltar.
Por lá ainda brincámos, tinhas as pequenas a correr disparadas de braços abertos para me abraçar. Duas foram tomar banho com o seu kit, enquanto se banhavam punham a cabeça de fora da casa de banho para as ver. A seguir, além de pedirem para as cheirar, vestiram-se à Benfica como eu gostava. Os seus olhares tristes por me ir embora desapareceram quando disse que ainda ia ao mercado, disseram-me que também iam e foram chatear o Bel para as levar.




















A despedida ficou então para o mercado. Estavam todos por lá e ficaram muito tempo. O Bel deixou-os comigo e foi embora. Brincámos alegremente, jogámos à apanhada de cabeça para baixo novamente. Quando era eu a ter que as apanhar o jogo teve que acabar, entraram a fugir pelos corredores de um hotel a dentro. Comeram todos noodles que eu ofereci. 

Depois veio a pior parte. Dizer adeus a 12 miudos magníficos que tive a sorte de conhecer. Deixei-os entrar na minha vida e em boa hora o fiz. Estes nunca me desiludiram, mostram gostar tanto ou mais de mim como eu gosto deles. Aqui não há receios de dizer gosto de ti, eu disse-o a todos. Eles chamam-me “brother”, outros vão mais longe e insistem no “father”. Prometi voltar e voltarei. Não sei quando, eles pediram-me para não demorar. Dizem que se demoro depois venho com barba e bigode. Vejo o Sovann grande como eu agora, o Chamrong como o Sovann, o Chamrang como o Chamrong, o Sarath como o Chamerong, o Soman como o Sarath e o Sopan disse que estaria como o Cristiano Ronaldo, um craque a jogar futebol. Nas meninas, a Tida estaria uma senhora, a Sochea como a Tida, a Sokim como a Sochea, a Sokay como a Sokim e a Bonita como a Sokay. A Soklay, com essa não há problema, eles dizem que será sempre pequena. Claramente, não posso demorar a voltar.

A despedida até foi tranquila, uns pediram-me abraços, outros agarraram-me e faziam-me festinhas. Nenhum chorou. Os rapazes disseram que queriam chorar mas que os rapazes são fortes e nunca choram. Nas meninas vi olhos húmidos, mas não cheguei a ver lágrimas. Eu, por eles e para bem deles, aguentei-me. Apenas me tremia a voz enquanto dizia pela última vez "good luck for you" e "pay attention in your classes". Dei 3 passos para longe deles e desfiz-me em lágrimas, como ainda agora me desfaço. Deixei o mercado e foi automático, o lábio a tremer, as lágrimas a escorrer e o maior nó na garganta que já tive na vida. Foi muito tempo, 2 meses parece pouco mas foram muitas horas seguidas, todos os dias sem excepção. Foram demasiados programas, demasiados momentos. Quando vim para o Camboja, achava que ia acabar por gostar dos meus alunos, mas nunca pensei que os alunos se tornassem naquilo que estes pequenos grandes benfiquistas se tornaram. Os alunos tornaram-se família, amigos. Tornaram-se demasiado importantes e especiais para agora os deixar. Hoje foi sem dúvida, de entre todos, o dia mais difícil. Já me despedi de muita gente na vida mas nunca desta forma. Aqui não há uma data de regresso prevista, nem tão pouco uma certeza de regresso. Não há a certeza que eles ficarão bem e juntos caso alguma coisa corra menos bem. Há aquelas pessoas de quem realmente gostamos, depois há os meus grandes pequenos benfiquitas. Há aquelas pessoas que marcam a nossa vida, depois há os meus pequenos grandes benfiquistas. A eles, um bem haja. Que tenham tudo aquilo que merecem, que a vida seja justa com eles. Que tenham tudo aquilo que precisam. Em Portugal, têm um irmão que tudo fará para os ajudar. No outro dia vi no facebook, depois de publicado um texto meu, a frase: “por vezes grandes coisas têm um pequeno começo”. Que estes dois meses tenham sido apenas esse pequeno começo.
Para já, infelizmente, há um avião para apanhar. 35 horas entre aviões e aeroportos e estarei de regresso. Tempo suficiente para escrever aquele que provavelmente será o ultimo post. Dado o tempo disponível e o que há para expressar, cheira-me a testamento.

1 comentário:

  1. Son Zé, não fiques triste na hora da despedida.
    Afinal o Cambodja não será, também, nesse sentido, como Coimbra (que como se canta no fado: tem mais encanto na hora da despedida)
    Os amigos são como as estrelas, nem sempre as vemos, mas estão sempre lá!
    e um bom investimento será sempre nas vivências pessoais que criam recordações maravilhosas e que não desaparecem.
    Pai e mãe.
    (beijinhos. bom regresso)

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