sábado, 5 de setembro de 2015

Festa surpresa!

5 de Setembro, memorizei esta data desde o dia em que fomos ao circo e vi, nos cartões que eles têm da Kilt (cá não há B.I.) com as datas de nascimento, que correspondia à suposta data de nascimento do Soman. Suposta porque quem fez aquilo foi o Bel que, segundo os miúdos, quando não sabia inventava datas de nascimento e aquilo está mal. Ainda assim, o Soman não sabe quando faz anos e, até hoje, nunca tinha comemorado o aniversário. Hoje, insistiu que continuava a ter 11 anos mas teve direito a festa!
A festa foi surpresa. Combinei com todos os pequenos grandes benfiquistas da Kilt festejar hoje sem lhe dizer nada. Os últimos dias foram passados aos segredos em frente ao Soman, com mentiras como “sabado o friend Zé tem coisas para fazer” ou a despedida de ontem que foi um “see you on Sunday” mas num entusiasmo louco. Eles, miúdos como são, davam imenso nas vistas com  toda a excitação em torno da festa. O Soman, miúdo como é, nos seus 11 anos não percebeu, apenas amuava de vez em quando por ninguém lhe contar os segredos (tinha que inventar qualquer coisa sempre para lhe dizer ao ouvido). Amua muito, está várias vezes triste aquele pequeno grande benfiquista. Hoje como o mais velho me dizia no mercado, não teve um bocadinho sem um sorriso na boca. Nunca ninguém o tinha visto tão contente.
Na verdade, a cara dele deu para perceber que não cabia em si de tanta felicidade. Chego, novamente de bicicleta cheia, com comida para todos. Correram todos na minha direcção numa excitação parva para começar a festa. Ao verem os sacos diziam: “full again Zé”. Sim, enchi-lhes a barriga novamente. A comida era imensa, eles comeram imenso, quase que despachavam tudo. Além da carne, salcichas, batatas fritas, sumos, pão, melancia, doces e bolo, comprei balões, espuma para atirarmos uns aos outros no momento dos parabéns e umas buzinas. Não se calaram com as gaitas a tarde inteira, chego ao mercado ainda eles andavam a soprar para aquilo.

De prenda de anos dei um relógio, aquilo que muitas vezes ele me falou que queria mas era caro (não foi!). O Soman não parava de sorrir, saltava de entusiasmo. Caiu numa das brincadeiras e quando ia para chorar, algo usual nele, levantou-se para continuar aos saltos com os outros. Teve, pela primeira vez, os seus amigos a cantarem-lhe os parabéns, teve algo só para ele. Agradeceu-me enumeras vezes, deu-me um abraço enorme, chamou-me de pai. Disse-me que gostava que eu fosse o pai dele. Aquela cara de alegria com que ele estava hoje vale qualquer esforço ou dinheiro que gastei. Melhor agradecimento não podia ter.
O resto da rapazada também estava animada, ou mais animada que o normal porque animados estão sempre. Comemos, brincámos, dançamos, parvejamos. Juntos, fomos e somos felizes. Vivemos e quem vê apenas inveja a relação entre nós criada. O Bel, esse, adora e tira fotos para recordar o momento. Eu e os pequenos grandes benfiquistas inventamos as brincadeiras mais parvas que alguma vez brinquei. Jogos de apanhada de cabeça para baixo que por certo eram 2 horas de choro num miúdo europeu tal não era o susto, por cá foi um sucesso. Eu que tenha forças para correr com todos. Rimos e gozamos uns com os outros e o tempo passa a correr. A festa começou as 10h da manhã, acabou às horas de ir para o mercado. A festa foi, mais uma vez, uma animação.
Lamento não estar por cá nas datas de aniversário de todos eles e não poder proporcionar um dia especial a cada um deles, que tanto merecem. Levo comigo todas as datas de nascimento (verdadeiras ou não!) para pelo menos mandar um mail e falar no Skype (hoje tratei do Skype deles). Assim, ao menos sabem que nesse dia fazem ou fizeram anos.  Infelizmente esta foi a minha última festa naquela casa tão especial para mim. No fim da festa chegou-me essa informação ao cérebro e senti uma tristeza demasiado grande que os próprios pequenos perceberam… Não quero falar disso. No avião logo tento meter em palavras a angustia que é ter que ir embora, deixar os meus pequenos grandes benfiquistas e voltar à realidade onde tenho tudo e mais alguma coisa daquilo que preciso, mas onde nunca me sentirei tão bem como aqui onde supostamente não há nada. Há pessoas, verdadeiros seres humanos que partilham tudo, vivem uns para os outros e ajudam-se o mais possível. Isso traz muito mais que qualquer dinheiro que venha a ganhar no futuro. 
Por hoje deixo-vos as fotos e os vídeos da festa que mostram que não era só o Soman a não caber em si de tanta felicidade. Tanto ou mais feliz que ele, estava eu. A minha t-shirt também diz uma grande verdade: I <3 Cambodia!






























sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Começaram as despedidas!

Começou a épica feira da cuba. Mais um ano a falhar aquela festa fantástica onde se perdem comboios ao meio-dia porque a noite da véspera ainda está boa. Ainda assim, não trocava estes dias por nada.
Esta tarde voltei a ser aluno. A professora de italiano ensina frases e nós praticamos em diálogos. Eu servia sempre de cobaia. Continuamos a inventar supostos diálogos no mercado, onde nunca vi um italiano. Enquanto a professora ensina expressões como “quanto custa?” eu mando-os perguntar como é que se diz “if you don’t buy, I’ll hit you”. Eles riem-se com ar de gozo e damos cabo da paciência da senhora, coitada. Ela até é simpática, e se muitas vezes parvejo, quando ela começa a ficar chateada com tanta brincadeira também sou um aluno exemplar. Mesmo assim, há muita palhaçada naquelas aulas.










Entretanto, os miúdos, tal como eu, começam a sentir que tudo isto está a chegar ao fim. Não querem, eu muito menos quero que a aventura termine. Hoje, o Sovann, o Chamrang e o Sarath tinham prendas para mim. 4 desenhos (o Sovann fez 2) dos melhores que eles já fizeram, com os melhores materiais que têm e embrulhados em plástico para não estragar na viagem. O Sovann escreveu um texto que fiquei de ler apenas em Portugal e no seu embrulho deixou também a única foto que tem dele próprio, dada há uns anos por outro voluntário. Disse que queria que fosse eu a ficar com ela para que nunca me esquecesse dele. Jamais o farei e o facto dele me querer deixar com aquilo significou imenso para mim, um orgulho enorme. Se calhar também marquei a vida dos pequenos grandes benfiquistas, não foram só eles a marcar a minha.














Emoções à parte que o doloroso dia ainda não chegou, à tarde fomos jogar futebol. Os rapazes todos juntos, rimos imenso naquele relvado, todos vestidos à Benfica. Faltou o Chamrong, que ardia em febre e não estava capaz de jogar. No fim, ofereci-lhe os meus ténis laranja à Cristiano Ronaldo. Ele, vaidoso como é, adorou o presente e ficou de marcar muitos golos com os ténis que um dia foram do teacher Zé. Por certo, os ténis são mais úteis a ele que a mim. Ele dar-lhes-á melhor uso que eu.

A manhã foi de emoções fortes, fui chamado ao touch a life. Para além de cozinhar (hoje foi descascar ananás e picar alho) e dar de almoço a mais de uma centena de crianças que, durante a semana, vão comer àquela casa, havia um programa diferente para o qual tinha que estar presente. A chama imensa voltou a aparecer, a novos miúdos mas recebida com a mesma alegria. Os equipamentos que tinha deixado no touch a life foram hoje distribuídos por meninos cambojanos que, à semelhança dos meus, pouco ou nada têm. Um por um foram vestindo o manto sagrado e seguiram para o campo de futebol improvisado. Começamos então a jogar um futebol que nem balizas tinha, era apenas correr atrás duma bola numa excitação imensa por terem equipamentos novos e bons, da melhor equipa do mundo como fiz questão de lhes explicar, o Benfica. Mais uns fâs, mais umas crianças felizes. Que orgulho que é conseguir proporcionar estes momentos. Todos os adultos o touch a life estávamos particularmente contentes hoje.













Depois veio a pior parte, o adeus ao touch a life. Se custou, não posso sequer pensar quando o fizer com os meus pequenos grandes benfiquistas. Muitos sábados depois, falho o último. Fui e já tenho saudades daquele ambiente, daquelas pessoas, daquela casa. Fui mas quero voltar sempre que me for possível. Sai pela porta grande, todos fizeram questão de se despedir de mim, de me desejar a melhor das sortes, de tirar fotos comigo e de agradecer a dedicação ao longo destes dois meses. Fui de coração apertado e com bonitas palavras da Mavis, a responsável (na foto). Guardo-as para mim, não tenho que as partilhar. Da Mavis depende a sobrevivência de centenas de crianças. Aqui a cozinhar, brincar com os miúdos e a ajudar em tudo o que me for possível, ou em Portugal simplesmente a contribuir monetariamente para o que ali se faz semanalmente, não quero nunca deixar de apoiar esta causa.
Naquela casa cresci enquanto ser humano, conheci pessoas fantásticas, ouvi histórias incríveis e vivi momentos que levarei para sempre comigo. Ali aprendi o que é realmente praticar o bem. Ali aprendi o que é realmente passar mal. Ali são ajudadas centenas de crianças pelas pessoas mais incríveis que já tive oportunidade de conhecer. Pessoas de todo o Mundo, pessoas que deixaram tudo para se dedicar aos outros. Doentes, aleijados, ex-alcoólicos, sobreviventes de catástrofes de avião, responderam às adversidades da vida com a sua generosidade. Deixaram famílias e amigos para trás com o único propósito de combater a fome das crianças cambojanas. Gostava de ser como eles, de viver a palavra generosidade como eles vivem. Estou muito longe disso. Fica a última foto, da família touch a life a despedir-se de mim. Chamo de família porque, assim como a Kilt, foram a minha família nestes 2 meses. Não podia ter tido melhor sorte. Em família vi e presenciei momentos que jamais me esquecerei. Já os relatei, é escusado repetir. Quem os vive sabe do que falo, quem apenas lê está muito longe de imaginar.

Até breve touch a life. Desejo que por mais voltas que a vida dê, tenha a sorte de voltar a esta casa, de me cruzar com mais pessoas como estas. 

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Visita aos crocodilos

Dia normal. Normal dentro da anormalidade que foram estes 2 meses. Obras de manhã e aulas à tarde.
Nas obras, o desespero habitual. Não vou ver o resultado final de tanta manhã de trabalho mas fico contente por ajudar os meus pequenos grandes benfiquistas na esperança deles virem a ter umas boas casas de banho no futuro. O calor que se faz sentir é infernal. Enquanto escavo vou vendo as pingas de suor a cair. Eles, apesar de mais habituados à humidade de 90%, também acabam pingando. Já todos trabalhamos em tronco nu, alguns de boxers. Corpos banhados em suor. Eu hoje acabei por tomar banho com água do poço no meio daquilo. E que bem que soube a banhoca...
Depois fui para a Kilt,onde cheguei e tinha as raparigas a correr para mim para lhes cheirar o cabelo. Senti-me mal, eu todo porco e mal-cheiro e as elas todas cheirosas e lavadas. Recuando 2 meses, invertemos os papeis. Volta e meia durante o dia mexiam nos seus cabelos e punham-no a fazer de bigode para o cheirarem. Estava bem mais macio do que é habitual. Elas e eles, principalmente os mais pequenos, davam-me os cabelos e braços para eu ver como cheiravam bem. Que orgulhosos que estavam, que contente que eu fiquei. Se valeu a pena a ideia de ontem. Como é fácil fazer a diferença na vida deles.
À tarde, aula de italiano. Eu sentei-me com os meus pequenos grandes benfiquistas, também eu era aluno. Senti-me um deles. Aprendemos expressões a usar no mercado (ideia minha), do género "quer comprar alguma coisa?", e a dizer aquilo que eles vendem - anéis, brincos, colares, pulseiras, malas e desenhos. Eles adoraram e todos esperamos ansiosamente por um italiano no mercado este fim-de-semana. Além disso, aprendemos os números. A língua da aula é o inglês, o ensinamento italiano. Eu já sei os números em Khmer, eles já sabem em Português. Às tantas já contávamos com as 4 línguas misturadas e confundíamos aquilo tudo. Ríamos com as trocas e as asneiras uns dos outros. A professora já não tinha mão nos alunos. Ela que me desculpe qualquer coisinha, mas prefiro mil vezes ser estudante e contribuir para a desordem de uma aula do que ser professor e tentar impor respeito e autoridade.
Por fim, a aventura do dia foi visitar os crocodilos. Ainda não tinha visto nenhum, só comido. Hoje vi centenas e centenas deles na "crocodile farm". Não gostei. Gostam menos de se mexer que um alentejano. No tempo que lá tive e no meio de centenas deles, vi movimento apenas em 3. Umas estátuas autênticas às quais só dava vontade de atirar uma galinha ou um pato lá para o meio para ver se eles aí reagiam e se mexiam um bocadinho que fosse. Digo isto porque essa opção era válida, vale tudo para fazer dinheiro. Eu armei-me em defensor dos patos e das galinhas e rejeitei alinhar na brincadeira. Chegou-me a brincadeira de ir ver os crocodilos que não teve piadinha nenhuma. Crocodilos só mesmo no prato.  







quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Kits de higiene para todos e... como tomar banho?

Mais um dia a acordar cedo para ir obrar. Obrar no sentido literal da palavra, ir para as obras. Sei que as probabilidades de obrar enquanto obrava eram enormes dado o jantar de ontem mas correu tudo muito bem. O estômago não se ressentiu da bicharada. A quem achou nojento o post de ontem, onde apenas tive um jantar diferente, olhem para os meus pés em estado pedreiro e vejam o que é um autêntico nojo.
Obras à parte, a aula da tarde foi peculiar. Agora apareceu uma voluntária italiana, já velha, que vai estar em Siem Reap apenas 1 semana. Decidiu ajudar a Kilt. Como? Dando aulas aos miudos... de italiano! A utilidade do italiano para eles é nenhuma. A aprendizagem em uma semana, também será nula. Daqui a 2 semanas, como é normal, já esqueceram tudo. Vale pela piada que é andarmos naquilo. O melhor aluno sou eu. Cheguei para a aula de inglês, estavam todos no italiano. Dado que a professora italiana ficou apenas com 3 miúdos após a minha chegada, achei que devia dar uma aula muito curta e virar aluno. Fui, também eu, para a aula dela. Eles seguiram-me e andámos para lá no "io mi chiamo", “grazie”, “prego”, “come stai?”, “io sto bene” e por ai… Os cadernos deles estavam lindos, com Khmer, inglês e italiano tudo à balda.  Mas pronto, se o Bel achou bem a língua nova quem sou eu para não entrar na brincadeira? Aprendi o italiano e todos queriam praticar os diálogos com o teacher Zé. Além da anedota que foi, tive direito a descanso. Amanhã nem preparo aquela que será, ou seria, a minha última aula.
Ao fim da tarde, fui jogar à bola com cambojanos seniores. Jogar à bola como quem diz, andei para lá a correr e à luta. 9 contra 9, cada um pior que o outro. Não acertam um passe, aliás, nem tentam. Chutam a bola para a frente e correm atrás dela. Bem pior que o inatel. Depois chocam uns contra os outros, andam 6 ou 7 aos murros e pontapés com uma bola pelo meio até que esta ressalte para outro lado qualquer. É inédito, depois de 90 minutos a jogar futebol, doem-me muito mais os braços da pancada que levei que as pernas. Isto explica a qualidade do jogo. Mesmo assim, apesar do terrível espectáculo, tinha 12 olhos vidrados naquilo, ou no friend Zé. Os rapazes da Kilt ao saberem que ia jogar, decidiram ir todos ver e fazer claque. Sempre que tocava na bola, ouvia uma reacção daqueles lados. Foi tão bom ter aquele publico tão especial, meus ricos meninos…
Finalmente, a parte mais missionária do dia ou, por outras palavras, a aula mais hilariante do teacher Zé. Como tomar banho?
Estou quase a ir embora e quero deixar os meus pequenos grandes benfiquistas com as condições mínimas sem que, ao mesmo tempo, os mime em demasia. Decidi tentar dar uma coisa útil, para nós essencial, mas que não os deixasse especialmente contentes. A higiene aqui é do mais básico que possam imaginar. Fiz então 12 kits de higiene com as coisas indispensáveis no nosso mundo. 1 cestinho para cada um, com shampoo, gel de banho, escova de dentes, pasta de dentes e um pente. O pente pode parecer mais entupido mas serve para combater a partilha de piolhos. Cada um tem o seu cesto para não haver chatice. Certifiquei-me que eram coisas boas, não das rascas que há por cá que ainda devem fazer pior à pele e cabelo. Eles, surpreendentemente adoraram. Ficaram fascinados com tudo. As raparigas começaram logo a usar o pente nos seus cabelos. Adoraram o Pantene enorme que tinham e o gel de banho “for girls”. Os rapazes fizeram a festa com o cheiro de homem que iam ter. A parte engraçada veio depois. Com tanto entusiasmo começaram a falar dos banhos, cheiros e daquilo que iriam fazer com o seu kit. A parte dos dois frascos, alguns não perceberam. Lá expliquei que um era para o corpo, outro para o cabelo. Depois veio a melhor parte. O Sopan, nos seus 10 anos, diz-me algo deste género: “Sim Zé, eu tomo banho e depois da água meto o creme no corpo para ficar a cheirar a rapaz”. Tive que reunir os pequenos grandes benfiquistas e explicar-lhes que depois do gel de banho, tinham que voltar a molhar-se para tirar a espuma. Inacreditável, mas acho que perceberam a ideia. Combinámos que amanha os ia cheirar a todos, cabelos e corpo. Caso hajam duvidas, fiquei de tomar lá o banho de balde para lhes mostrar como é que se usam 2 frascos distintos num duche. Nos próximos tempos, pelo menos, andarão mais asseados. Adoraram a ideia, agradeceram uma e outra, e outra vez. A mulher do Bel veio dizer-me que eles estavam realmente  contentes com a prenda, eu respondi que também estava com a oferta que tinha feito. Se estava...


 

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Jantar de tarântulas, grilos, formigas e escorpiões.

Dado o título do post, tudo o que possa escrever sobre o meu dia vai ser totalmente desinteressante. Mais do mesmo na verdade. Apenas o jantar interessa, pelo que até lá procurarei ser breve.
Chego de manhã à Kilt e siga com os mais velhos para as obras. Cada macaco no seu galho, os tanques já estão todos no seu sítio. Faltam enterrar três. A parte boa é que já conseguimos trabalhar 4 ao mesmo tempo (nos buracos com 2 tanques é preciso outra pessoa para puxar o balde) pelo que amanhã, com esforço e suor, pode ser que a primeira parte das casas de banho esteja concluída. Dado o jantar de hoje, a ver se não sou eu a estrear o tanque.
Regressado à Kilt, aulas à tarde e depois brincadeira com os mais pequenos. A chuva não deu tréguas, pelo que hoje foi mais calminho.
No mercado, com o que chovia acabou por não ser um bom dia. Despachei mais umas encomendas, talvez as últimas. Mais interessados, sábado ainda passo por lá. Daí em diante, espero que eles por eles, sem a nossa ajuda e contribuição, consigam ganhar o seu sustento ali e consigam ter mais coisas na mesa para além de arroz.

Que essas coisas não sejam insectos, não merecem.

Já falo com conhecimento de causa. Hoje fui jantar insectos, era o que faltava na lista de actividades a desenvolver no Camboja.
À minha avó que depois de ler o meu post sobre a comida decidiu dar-me algum dinheiro para comer bem, um enorme obrigado. O hambúrguer de ontem estava óptimo. Da próxima, faça-me é algumas restrições. Além do obrigado, também devo talvez um pedido de desculpas. Os seus olhos não merecem ver as fotos e vídeos que se seguem. Diga ao avô que o marisco é bem melhor e que vou chegar esfomeado.
Voltando ao jantar. Entre salada de grilo e bichos da seda, uma espetada de insectos, spring rolls de formigas e coisas aleatórias, mandei muita coisa nova cá para dentro. Amanhã já posso acordar a dizer que comi tarântulas, grilos, formigas ou escorpiões. Vamos lá ver é como é que o acordar, não vá a bicharada lembrar-se de se vingar nestes pobres intestinos. Quanto ao sabor, consegui mandar tudo cá para baixo mas com algum sacrifício. Gostava de dizer que foi bom, mas não. Foi só estupido e dinheiro mal gasto. Há coisas estaladiças, que até se comem bem de olhos fechados. A tarântula, onde se vê ali os pelos do bicho, é preciso umas semanas de Camboja para meter aquilo à boca, mas estava boa. As formigas, um nojo. Ao menos, enquanto as comia lembrei-me da quantidade de picadas que as formigas vermelhas que há por cá aos pontapés já me fizeram. Nessa perspectiva, e só mesmo nessa,, soube bem a vingança aos insectos! Como diria o outro, a vingança é um prato que se serve frio. Nem mais...